Memória: aquilo que nos cativa permanece - Pensando bem #4
Em um mundo saturado de estímulos, a memória parece cada vez mais frágil — ou, ao menos, mais seletiva. A neurociência tem mostrado que lembrar não é apenas uma questão de repetição ou esforço consciente, mas sobretudo de relevância emocional e significado. Em outras palavras, lembramos daquilo que nos toca. Daquilo que nos cativa.
O neurocientista Michel Desmurget, em sua crítica aos impactos do excesso de telas na atenção e no desenvolvimento cognitivo, resgata uma intuição literária profundamente verdadeira: a memória não se fixa no que é apenas visto, mas no que é vivido com intensidade. Essa ideia dialoga diretamente com a célebre obra O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, especialmente na passagem em que a raposa ensina que “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Do ponto de vista neurocientífico, esse “cativar” pode ser entendido como o envolvimento afetivo que ativa sistemas cerebrais ligados à emoção, como a amígdala, e fortalece conexões no hipocampo, região essencial para a formação de memórias duradouras. Experiências emocionalmente significativas são codificadas com mais profundidade. Elas deixam marcas. Não passam.
O problema contemporâneo talvez não seja apenas a quantidade de informações, mas a qualidade da nossa relação com elas. Em um fluxo constante de conteúdos rápidos, fragmentados e descartáveis, pouco nos detém o suficiente para que algo seja verdadeiramente cativado. Consumimos muito, mas nos vinculamos pouco. Vemos muito, mas sentimos pouco.
Isso levanta uma questão inquietante: temos, de fato, cativado — e sido cativados — em nossas experiências cotidianas? Ou estamos apenas deslizando superficialmente pela vida, sem permitir que algo nos marque de maneira duradoura?
A memória, nesse sentido, não é apenas um depósito de lembranças, mas um reflexo da nossa capacidade de nos envolver. Cultivar experiências significativas, relações profundas e momentos de atenção plena pode ser, paradoxalmente, o caminho mais simples — e mais humano — para lembrar melhor.
Talvez, no fim das contas, a pergunta não seja “por que esquecemos tanto?”, mas “o que, de fato, temos permitido nos cativar?”.
Referências
DESMURGET, M. A fábrica de cretinos digitais. Tradução de Mauro Pinheiro. São Paulo: Vestígio, 2025.
SAINT-EXUPÉRY, A. de. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 2015.
✍️ Altair Fonseca
Bacharel em Publicidade e Propaganda, Graduando em Filosofia, Partilho sobre Filosofia e Fé Católica
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