A opinião de todo mundo importa? - Pensando bem #1
Sócrates viveu aproximadamente de 470/469 a.C. até 399 a.C. Ele foi injustamente condenado à morte por motivos que podemos refletir em outra oportunidade. O que importa para a nossa conversa de hoje é que, estando na prisão, Sócrates foi visitado por um amigo chamado Críton. Aflito porque Sócrates seria condenado à morte, Críton suborna os guardas e tem uma conversa com seu amigo para convencê-lo a fugir. Críton estava preocupado com o que os outros iriam pensar dele, já que tinha posses e não podia deixar seu amigo abandonado na prisão. Sócrates responde com uma reflexão: é mais útil para um atleta, que visa o desenvolvimento físico e o alto rendimento, se preocupar com a opinião da maioria ou priorizar a opinião do seu experiente treinador, com avançado conhecimento e autoridade na arte do cuidado com os corpos e a prática de esportes? Depois de mais algumas reflexões, Sócrates finaliza dizendo: “Logo, meu caro amigo, não devemos de forma alguma preocupar-nos com o que diz a maioria, mas apenas com a opinião dos que têm conhecimento do justo e do injusto, e com a própria Verdade” (Platão, 2023, p. 175). Ora, cada pessoa possui princípios e valores construídos ao longo da vida. Por que abrir mão deles por conta da opinião de uma maioria com múltiplos princípios e valores, muitas vezes discordantes entre si? Uma coisa é a sadia unidade na diversidade, sem preconceitos. Outra coisa é a doentia anulação de si para agradar quem discorda.
Não se trata de um fechamento ao diálogo, mas quem quer fazer um bolo busca a opinião de uma confeiteira, e não de uma multidão de pedreiros. Seria curioso ver uma jovem tentando aprender balé com um grupo de mecânicos, ou um rapaz insistindo em aprender xadrez com um grupo de maquiadoras.
O neurocientista francês Michel Desmurget disse que “uma multidão não é sempre, quase nunca mesmo, uma garantia de bom desempenho. Vários trabalhos mostram que a criatividade é, na esmagadora maioria dos casos, a façanha de espíritos solitários”. Ou seja, muita gente pensando junto pode acabar se confundindo e se anulando. É mais fértil dar tempo para que a individualidade pense, reflita, produza, e aí sim, compartilhe com o grupo para uma troca benéfica. Desmurget conclui que “Em regra, o grupo tende a se revelar bem menos fértil e inteligente que a soma das individualidades”.
Minha ideia aqui não é estimular bolhas ou redomas de vidro nas quais as pessoas se escondem da realidade. Quero apenas que reflitam sobre o contrário disso: um excesso de exposição e necessidade de saber da vida alheia que pode destruir qualquer sonho ou projeto. Pense bem, muitos dos grandes pensadores da humanidade se destacaram justamente por buscar a verdade e não a aprovação da multidão.
Referências:
DESMURGET, M. A fábrica de cretinos digitais. Tradução de Mauro Pinheiro. São Paulo: Vestígio, 2025.
PLATÃO. Críton. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 4. ed. rev. e bilíngue. Belém: ed.ufpa, 2023.
✍️ Altair Fonseca
Bacharel em Publicidade e Propaganda, Graduando em Filosofia, Partilho sobre Filosofia e Fé Católica
📺 Acesse o canal no YouTube
.png)
0Comentários