O distrito de Rio Claro que trocou de nome para afrontar um dos homens mais odiados da história

Por Renan Salema — Economizei Rio Claro

Distrito de Lídice em Rio Claro - RJ

Crédito: Vamos Trilhar — vamostrilhar.com.br

Quem passa pela RJ-155 e vê a placa com o nome "Lídice" provavelmente não imagina o que está por trás dessas seis letras. Não é o nome de uma santa, nem de um fundador, nem de um rio da região. É o nome de uma vila tcheca que foi apagada do mapa por ordem de Hitler em 1942, e que o mundo decidiu nunca deixar ser esquecida.

Rio Claro tem, em seu território, um dos lugares mais singulares do Brasil: um distrito que trocou de nome durante a Segunda Guerra Mundial como ato de resistência ao nazismo. Essa é a história de Lídice.

Vila do Parado: quem era esse lugar antes de 1944

Antes de se chamar Lídice, o distrito era conhecido como Santo Antônio do Capivary, nome que vinha do rio Capivari que corre pela região. Mas os habitantes tinham um apelido menos formal para o lugar: Vila do Parado. E o nome dizia muito sobre o ritmo de vida dali.

A região começou a ser ocupada durante o ciclo do café, no século XIX, quando fazendas se espalharam pelo interior fluminense e uma estação de trem foi construída na localidade. A ferrovia que ligava Angra dos Reis ao sul de Minas Gerais passava por ali, trazendo algum movimento. Mas a Vila do Parado nunca chegou a ser uma cidade grande. Era um lugar tranquilo, de gente simples, cachoeiras e mata fechada, que seguia seu próprio tempo enquanto o resto do mundo acelerava.

Até que o resto do mundo bateu à sua porta.

O massacre que chocou o mundo

Em 27 de maio de 1942, em Praga, guerrilheiros checos e eslovacos executaram um atentado contra Reinhard Heydrich, um dos mais poderosos oficiais das SS nazistas, responsável pela administração dos territórios ocupados na Boêmia e Morávia e um dos principais arquitetos da "Solução Final". Heydrich morreu dos ferimentos dias depois.

A resposta de Hitler foi brutal e deliberada. Os nazistas escolheram a pequena vila de Lidice, na Tchecoslováquia, como alvo de represália, sob a suspeita, jamais comprovada, de que seus moradores teriam abrigado os agressores. No dia 10 de junho de 1942, soldados alemães cercaram a vila e executaram ali mesmo todos os homens maiores de 15 anos. As mulheres foram enviadas ao campo de concentração de Ravensbrück. As crianças foram levadas para reformatórios, e a maioria foi assassinada com gás. 340 pessoas foram mortas no total, incluindo 88 crianças.

Depois do massacre, os nazistas incendiaram cada construção, arrasaram os escombros e cobriram o terreno com terra. A intenção era clara: fazer Lidice desaparecer da história.

A resposta do mundo: se Hitler quer apagar, nós multiplicamos

A notícia do massacre se espalhou rapidamente pelos países aliados e gerou indignação internacional. A reação foi à altura da crueldade: se Hitler queria que o nome Lidice desaparecesse para sempre, o mundo faria o oposto. Países aliados começaram a batizar localidades com o nome da vila destruída, espalhando Lidice por vários continentes como ato simbólico de resistência.

No Brasil, a iniciativa partiu do Instituto dos Advogados Brasileiros. Mario Accioly, então procurador da República, encaminhou ao interventor federal do estado do Rio de Janeiro, Ernani Amaral Peixoto, uma proposta para dar o nome de Lídice a uma localidade fluminense. A justificativa era direta: uma ação concreta contra os inimigos do país. A proposta foi aceita, e Peixoto escolheu Santo Antônio do Capivary, no então município de Itaverá (atual Rio Claro).

A inauguração oficial da Lídice brasileira aconteceu em 10 de junho de 1944, exatos dois anos após o massacre. A cerimônia reuniu o interventor federal, representantes do Ministério das Relações Exteriores, adidos militares e diplomatas de países como Tchecoslováquia, Polônia, México, Turquia, Bélgica e Reino Unido. A Vila do Parado entrava para a história mundial.

Os símbolos que ficaram

A mudança de nome não foi apenas simbólica. Lídice foi construída para lembrar. Na praça central do distrito ergue-se uma estátua de uma Fênix, a ave mitológica que renasce das próprias cinzas, inaugurada em 1944 como símbolo da resistência e da esperança diante da destruição.

O Centro Cultural de Lídice abriga exposições permanentes sobre a República Tcheca, com painéis, fotografias e documentos traduzidos para o português que contam a história da Lidice original. O CIEP 296 do distrito recebeu o nome de Presidente Beneš, em homenagem ao presidente da Tchecoslováquia durante a Segunda Guerra Mundial. São camadas de memória construídas ao longo de décadas para que a história não se apague.

A ligação com a República Tcheca é viva até hoje. Em 2022, o Consulado Geral tcheco em São Paulo realizou em Lídice as comemorações dos 80 anos do massacre, com exposição, documentários e atos solenes. Crianças brasileiras participam anualmente do Concurso Internacional Infantil de Artes Plásticas Lidice, promovido desde os anos 1960 pela República Tcheca em memória das crianças assassinadas.

Lídice hoje: paz, natureza e memória viva

Quase oito décadas depois, Lídice segue sendo um lugar de ritmo tranquilo, com cachoeiras, trilhas, mata atlântica e uma beleza natural que atrai visitantes de toda a região. O distrito fica a cerca de três horas do Rio de Janeiro pela RJ-155, sem ônibus diretos da capital: é preciso ir até Rio Claro e seguir por transporte local.

Todo ano, próximo ao dia 10 de junho, o distrito celebra a Festa da Paz, o evento mais tradicional de Lídice, que mistura música, cultura, gincana, desfile cívico e esporte numa programação de quatro dias. A festa é uma homenagem direta às vítimas da Lidice tcheca e ao significado do nome que o distrito carrega. Em 2026, a celebração marca os 82 anos do distrito, com a Corrida da Paz encerrando a programação na manhã do domingo.

Lídice é um lugar que carrega um nome pesado com muita leveza. Um pedaço de Rio Claro que guarda, sem alarde, uma memória que pertence ao mundo inteiro.

Publicado em 2 de junho de 2026 | Economizei Rio Claro